Entrevista:"O problema é o ser humano", diz especialista

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snaketutor
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Entrevista:"O problema é o ser humano", diz especialista

Mensagem por snaketutor »

Um dos maiores especialistas em segurança aérea diz que os aviões modernos são bastante confiáveis, mas é preciso um esforço extra para reduzir o risco de erro dos pilotos.

Depois de um grande acidente aéreo, é natural que os passageiros se preocupem ainda mais com o grau de segurança existente nos voos. O americano William R. Voss, 51 anos, é frequentemente questionado, e sua resposta é a seguinte: a aviação está cada vez mais segura, mas ainda se pode fazer muito para torná-la mais segura. Especialista com quase três décadas de experiência, ele preside a Flight Safety Foundation (FSF), entidade sem fins lucrativos que serve de fórum para as companhias aéreas trocarem informações e discutirem questões relacionadas à segurança. A FSF tem 800 empresas afiliadas em 150 países. Ele trabalhou 23 anos no FAA, o órgão que administra o tráfego aeronáutico americano, e foi diretor de navegação aérea da Icao, a agência das Nações Unidas que se ocupa da aviação internacional. De seu escritório na sede da FSF, no estado americano da Virgínia, ele deu a seguinte entrevista:

Muitas pessoas ficaram com medo de andar de avião depois dos grandes acidentes aéreos ocorridos nos últimos anos. Há um motivo racional para isso?

Não. A aviação é, de longe, a forma mais segura de transporte. Mesmo com os acontecimentos recentes, a probabilidade de ocorrer um desastre aéreo é inferior a 1 em 1 milhão. E, ainda assim, dois terços das pessoas a bordo sobrevivem aos acidentes. É surpreendente, mas é só lembrar alguns factos recentes, como o do avião que amarou no Rio Hudson, em Nova York. Todos sobreviveram. Ou o do avião da Turkish Airlines que caiu próximo à pista em Amsterdão. Das 134 pessoas a bordo, apenas nove morreram. As pessoas deixam de lado as estatísticas, porque acabam tomadas pela emoção. De certa forma, isso é natural.

O Airbus A330-200 da Air France que se acidentou há alguns meses na costa brasileira é um dos modelos mais modernos do mundo. Como um avião tão cheio de recursos tecnológicos pode cair?

É impressionante que uma aeronave tão bem testada, de uma companhia aérea com excelente reputação, tenha se envolvido em um acidente assim. Mas, sem as caixas-negras, não é possível saber exatamente o que aconteceu. É por isso que se está a fazer esse esforço fenomenal para encontrá-las. Não me lembro de terem usado antes um submarino nuclear para encontrar as caixas-negras. De qualquer forma, acredito que não foi apenas uma a causa do acidente, e sim uma combinação de fatalidades. Entre elas, uma condição meteorológica muito severa. Quando entendermos todas elas, poderemos fazer ajustes para que nunca aconteçam novamente.

Mas os aviões não são construídos para suportar tempestades?

Sim, mas há situações arriscadas demais, mesmo para os aviões mais modernos. Os pilotos evitam entrar em nuvens do tipo cúmulo-nimbo de todas as maneiras. Já as turbulências, por si só, não apresentam perigo. Os aviões são projetados para suportá-las tranquilamente.

Será possível aprender algo com o acidente do Airbus da Air France caso as caixas-negras não sejam encontradas?

As mensagens automáticas enviadas pelo avião antes da queda são pistas valiosas. Como aquelas que levam a concluir que houve falha dos pitotos (instrumentos de medição de velocidade). Mas, sejam quais forem as conclusões, é melhor investir na habilidade dos pilotos de lidar com problemas do que aumentar o número de sistemas auxiliares dos aviões.

Os críticos da Airbus afirmam que a automação dos aviões fabricados pela empresa é exagerada. Põe em risco a segurança do voo por tirar do piloto muito da sua autonomia?

Não há evidência de que aviões mais automatizados ofereçam mais risco. Mesmo a Boeing, a principal competidora da Airbus e apontada como uma fabricante que privilegia a autonomia dos pilotos, está a produzir modelos fly-by-wire, como o 777 e o 787. A tendência de um maior número de equipamentos eletrônicos nas aeronaves é irreversível.

Aviões tão inteligentes não podem levar a que os pilotos fiquem mais acomodados e, numa situação de perigo, sejam incapazes de reagir?

Sim, esse é um aspecto em que temos prestado muita atenção. A verdade é que o ser humano é ruim em monitorar, está muito sujeito a distrações. No caso da aviação, o difícil é conseguir que o piloto se envolva mais com o controle dos instrumentos das aeronaves, já que, em geral, elas funcionam muito bem em automático. Estamos bastante preocupados, pois houve uma série de acidentes neste ano devido a problemas de monitoramento dos sistemas. Tanto no acidente em Amsterdão como no de Buffalo (que matou 49 pessoas, em fevereiro), os pilotos perderam as referências de voo e não conseguiram evitar a queda. Ficar sem o velocímetro ou o altímetro não é um problema se o piloto souber as condições imediatamente anteriores de navegação. É como dirigir um carro. Se o motorista estiver com atenção na estrada, não será tão perigoso perder o retrovisor: ele continuará com uma boa ideia de como está o tráfego. Por isso, as agências de segurança da aviação do mundo inteiro discutem a necessidade de dificultar o treinamento dos pilotos em relação à automação.

O que poderia ser feito para melhorar o treino dos pilotos?

Estamos a analisar se é necessário testar novas habilidades nos simuladores e se os treinos precisam de ser mais frequentes, como antigamente. A dificuldade é que, dado o volume de componentes electrónicos, não é possível treinar todas as situações. Outra questão é sobre a utilidade de passar centenas de horas a mostrar cada possibilidade aos pilotos, quando talvez só um deles, a cada 1000, realmente vai deparar com uma das situações simuladas. Também há dúvidas se o piloto conseguirá lembrar-se de tudo o que aprendeu.

"O ser humano é ruim em monitorar, está sujeito a muitas distrações. Ficar sem o velocímetro ou o altímetro não é um problema se o piloto souber as condições imediatamente anteriores de navegação. É como dirigir um carro. Se o motorista estiver com atenção na estrada, não será tão perigoso perder o retrovisor"

Até que ponto os simuladores parecidos com os videogames preparam um piloto para uma situação real?

Os simuladores atuais são muito realistas, e os pilotos tentam a todo custo reverter os problemas que enfrentam virtualmente. Afinal de contas, é a carreira deles que está em jogo. No simulador, eles sofrem altas cargas de stress, ficam suados e até se esquecem de que se trata de simulação. Se passarmos todo o treino para um avião real, como ocorria antigamente, correríamos o risco de causar ainda mais acidentes. Durante o treino no ar, é pequeno o limite entre uma emergência simulada e uma de verdade.

Existe algo que o passageiro possa fazer para garantir sua segurança?

Não muito...

O custo do negócio aéreo é caro. Não existe o risco das empresas tentarem economizar em segurança?

É claro que algumas podem cair nessa tentação. Por isso, é essencial que as autoridades reguladoras redobrem a sua vigilância para que os cortes de custos não afectem a segurança. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, muitas companhias entraram em crise, outras faliram, mas o número de acidentes não aumentou. Ou seja, recessão não significa, necessariamente, mais acidentes. É importante deixar claro, porém, que as empresas têm razões de ordem econômica para não descuidar da manutenção, porque, se um avião fica no chão, isso significa prejuízo. Pegue-se o exemplo de uma turbina. Como se trata de um componente muito caro, o pessoal financeiro não quer que a peça quebre de jeito nenhum. Por isso, se ela está consumindo mais combustível do que o normal ou apresenta variação irregular de temperatura, os reparos são feitos imediatamente. Segurança e operação andam juntas.

Quanto dos gastos das companhias aéreas é dedicado à segurança?

É difícil dizer. Seria necessário computar no item segurança todos os gastos com manutenção. Uma única e simples peça defeituosa pode causar grandes problemas. Portanto, é preciso identificá-la na hora da revisão. Há vinte anos, os defeitos só eram percebidos quando alguma peça quebrava, muitas vezes no ar. Hoje, a probabilidade de ocorrer uma falha durante uma viagem é muito menor. Andar de avião tornou-se ainda menos perigoso.

Qual o papel da Flight Safety Foundation nas investigações dos acidentes aéreos?

O objetivo principal é entender o que provocou as falhas e descobrir como evitar que aconteçam novamente. Não é encontrar culpados. Como os acidentes são causados, na maioria das vezes, por uma sucessão de problemas, tentamos fazer com que essa sequência não se repita. Mas não nos concentramos apenas nos acidentes. Analisamos também os incidentes e relatórios de funcionamento dos aviões, para prevenir o aparecimento de problemas mais sérios. Nós organizamos, ainda, treinos de pilotos e ajudamos as companhias aéreas a conversar entre si, de forma a evoluírem juntas. Centenas de parâmetros são gravados durante um voo. Se o piloto fizer alguma coisa fora do normal, eles poderão ser analisados por nós, a pedido da companhia, para que se entenda o que aconteceu.

Há aeroportos localizados dentro de grandes cidades. Eles deveriam ser removidos?

Embora não seja uma situação ideal, o fato é que as pessoas gostam de ter aeroportos perto de casa. Na verdade, mesmo um aeroporto localizado no centro de uma grande cidade poderá ser usado com segurança se forem respeitadas suas limitações estruturais.

Fonte: Revista Veja (Edição 2120 / 8 de julho de 2009) via Fórum Contato Radar
kilhao
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Re: Entrevista:"O problema é o ser humano", diz especialista

Mensagem por kilhao »

Muito interessante!!! :wink:

abraço
joaoantoniofig
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Re: Entrevista:"O problema é o ser humano", diz especialista

Mensagem por joaoantoniofig »

pelo que li é mt interessante...
bonuz
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Re: Entrevista:"O problema é o ser humano", diz especialista

Mensagem por bonuz »

Intersante